sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Absolutamente sem título



O meu problema é indefinição. Não que eu não saiba o que ele seja. Eu sei que não sei, e isso me pinica tal qual uma fantasia indesejada de tecido duro em festa junina, com direito às sandálias de PVC que todos viam sob meu olhar. E o problema também é o olhar.

Pra viver, me parece que devemos investir em uma ideia do que pode nos dar alguma felicidade. Desta forma germina uma necessidade petulante aqui dentro de definir o que é certo pra mim. E de ter coragem de acreditar que algo possa sê-lo.

Questionar é fácil, vem como o gosto azedo nas raízes do meu peito sufocado depois das curvas da estrada. É natural, até. Questionar é sondar a paisagem por uma janela embaçada enquanto se desenha na umidade do hálito esfomeado. Mas nessa jornada o tempo não permite paradas, e a alma permanece faminta.  

Atormenta-me a possibilidade de que viver seja simplesmente desapropriar-me de mim mesma para garantir uma sobrevivência superficial da existência que devia ser minha e que eu desejava aprofundar. Desejo. Desejava. Desejaria se.

Chegará o momento circunstancialmente indelicado em que será exigida uma definição.

O meu problema é indefinição.

sábado, 22 de outubro de 2011

Valor



De que valem as lágrimas que escorrem tão fácil, o mundo que não me cabe no peito, de que me vale estar tão à superfície? Pra quem olha de fora, o valor não vem pelo que aparece dentro de mim. Pra quem olha de fora é preciso que eu faça. O que fazer, está aí uma pergunta não perguntada e tão pouco respondida.

Porque a alma se constrói todos os dias, camadas e camadas de arrepios e ternura aprendidos. Lições de como ser gente, permitir-se sentir, olhar com o coração para as coisas. Um novo fôlego em oração à minha essência. O meu eu presente, o presente de absorver toda a intensidade que se oferece.

E meus dedos trêmulos, inseguros. Meus pés sem caminho se contorcem. Meus pequenos olhos, eu tão pequena e tudo tão grande aqui dentro.

"Mas quem você é, o que faz de importante?" - eles perguntam. Mas não é importante ser feliz? Ser respeitado a troco de quê? Ser conhecido, ser lembrado. Mas para quê? Prefiro o anonimato em regozijo. Prefiro a irrelevância da serenidade. Tão-mais importante para mim aproveitar essa única chance, valer a pena de ser tão evanescente, ter estado brevemente mas bravamente em estado de graça.

De que vale? De nada. No fim é tudo fim. Mas agora eu existo, e essa alegria sucesso nenhum vale adormecer.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Apologia à brevidade


Sempre fui obcecada com a morte. Afinal, é ela quem te dá a ultima palavra, quem tira toda a dignidade, quem te coloca no seu lugar. É ela quem dá valor pra vida, quem te expõe mas nunca se mostra por completo. Não há em nenhum outro ato humano tanta sinceridade e beleza quanto na morte. Sim, ela eventualmente deforma qualquer pessoa, mas o ato de morrer é sempre bonito. Seja pela dor que os olhos dos que assistem exprimem, seja pela fragilidade da vida que é injustamente tirada,  seja pela coragem  e estupidez da escolha. Há sempre algum aspecto muito poderoso e muito bonito no fim.

Não digo que eu goste de ver pessoas morrendo. Na verdade nunca vi nenhuma e acredito que se visse meu delicado coração não se recuperaria por um bom tempo. Mas meus suprimentos de leituras e seriados sempre tentam revelar o ato com entusiasmo. Claro que o fato real deve ser ainda mais grandioso que uma mera representação - e apesar disso, te garanto que não faço nenhuma questão de presenciá-lo algum dia. Mas aqui na segurança das ideias, acredito que morte tem algo de muito encantador.

Uma única morte faz qualquer coisa parecer pequena e qualquer pessoa parecer importante. Quando as pessoas te falam como têm você em grande estima é muito dificil de acreditar.  Afinal, com todos os defeitos que você conhece em sí, seria possível ser querido? Não sei dizer. Mas se pergunte: se você morresse na frente delas, qual reação assistiria? Certamente os sentimentos se solidificariam em olhares significativos e você não teria mais dúvidas. 

Sabemos que amamos realmente alguém quando sentimos dor ao imaginar a possibilidade da sua morte. E como é gostosa, apesar de sofrida, essa certeza de que precisamos de alguém. Que sem aquela pessoa nada teria valor e o sentido da nossa vida escaparia entre nossos dedos. Como é bom ter alguém nos braços e pensar na felicidade de estarmos juntos naquele momento. "Nós nos encontramos nessa estrada de mistérios e temos a alegria de viver na companhia um do outro! Quanta sorte!"

Que sorte a nossa.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Pequenez





As vezes eu vejo tanta bondade nas pessoas que eu sinto que meu coração vai explodir. 
As vezes vejo tanta sujeira que sinto que ele não tem motivos pra continuar batendo. 


Em ambos os casos, eu me sinto tão pequena! 
Diante da grandeza de uns e da opressividade de outros, onde é que eu contribuo?